O
Brasil está desempenhando papel pioneiro na adoção da IFRS S1 e S2. É o
primeiro país formalmente a adotar e o mundo inteiro está olhando para o Brasil,
exatamente porque ao contrário do que ocorreu quando o País aderiu às normas
internacionais de contabilidade, em sustentabilidade todo mundo está começando,
então quem faz a norma não tem modelo.
A
contadora Vania Borgerth, Vice coordenadora de Relações Internacionais do
Comitê Brasileiro de Pronunciamentos de Sustentabilidade (CBPS) e Coordenadora
da Comissão Brasileira de Acompanhamento do Relato Integrado (CBARI), destacou
no painel Implementação das Normas IFRS S1 e S2 no
Brasil, durante o II Encontro ICBR ESG 2024 – Normas e Desafios
Profissionais, que nem quem
vai supervisionar os relatórios e nem as empresas têm modelo, logo caberá ao
Brasil dar esse pontapé inicial. “Então, é um desafio grande, mas o Brasil tem
potencial para isso”, afirmou.
A
vice coordenadora do CBPS disse que a profissão contábil pode ajudar
imensamente com a experiência, com a integração que ajudará no processo de
auditoria, de asseguração, de comportamento ético.
Para
Vania Borgerth, o principal desafio é a capacity building, porque todo
mundo precisa aprender. Não apenas quem vai elaborar o relatório, mas, os
professores precisam aprender, os analistas, os jornalistas e os investidores
além os usuários da informação para tomar decisão. “É algo muito novo para todos,
mas também é um caminho sem volta, o mundo do futuro não conseguirá abrir mão
de pensar em sustentabilidade, porque já se percebeu que o planeta está
sofrendo e que a continuidade da vida humana e do conforto como se conhece,
depende sermos mais responsáveis do ponto de vista de sustentabilidade”, afirmou.
Na
verdade, afirmou a vice coordenadora do CBPS, no início ninguém achava que essa
história de sustentabilidade fosse séria ou que afetasse valor da empresa. Mas
o mundo percebeu o contrário. Hoje em dia, olha-se para essas catástrofes
climáticas acontecendo e quanto valor é perdido em desastres que, de repente,
poderiam ter sido evitados. Para ela, se você pensar de uma forma sustentável,
mudar a cultura, a forma como o ser humano lida com as questões ambientais,
sociais, de governança, é possível ter uma vida e uma cultura humana que seja
mais equilibrada, com menos disparidades, com menos desigualdades e com menos
desrespeito à natureza.
Vania
Borgerth destaca que, hoje em dia, mesmo os mais críticos conseguem perceber
que se não prestarem atenção nisso, perderão valor da empresa, dinheiro, vidas,
e estrutura, desperdiçando recursos porque se faz projetos que não se sustentam
a longo prazo. “Então, na verdade, isso ajuda bastante. Atualmente, os
negacionistas são em menor número, mas isso não quer dizer que não tenhamos
ainda muito o que aprender, não é perfeito, nós não temos normas de
contabilidade perfeita depois de décadas. Então, não será a primeira norma de
sustentabilidade que estará perfeita, mas precisamos exatamente usar isso como
uma oportunidade de aprendizado. Se cruzarmos os braços e deixarmos para ver o
que acontece, não vamos aprender com os erros, é muito importante que a
sociedade como um todo participe, consiga apontar o que não está dando certo
para fazermos uma sintonia fina e chegarmos numa norma que possa ser aplicável
no mundo inteiro”, defendeu.
Ser
inclusivo
O
doutor Fernando de Almeida Santos, Conselheiro Notável do ICBR, coordenador e
Professor do Mestrado Profissional em Ciências Contábeis, Controladoria e
Finanças da PUC-SP, Professor da PUC-SP e da FATEC-Osasco e pesquisador do
Centro Universitário ENIAC, destaca que o Brasil está vivendo um momento de
grande transformação na área contábil, que passa pelo S1 e S2, ou seja, a
questão do ESG e a questão do relato integrado e como que faz todo esses
processos. Destaca a transparência, a forma de demonstrar estes aspectos, que
possibilita ampliar a contabilidade. De forma que ela contemple não só questões
tradicionais, contábeis e financeiras, mas, também, as questões sociais,
ambientais. “Com isso, a contabilidade se torna muito mais instrumento para tomada
a decisão e muito mais útil para a sociedade, transformando até o mundo, melhorando
de forma contínua”, disse.
Nesse
momento, afirmou o professor, o Conselho Federal de Contabilidade (CFC) está
muito preocupado com o tema e tem sido muito importante no processo de
transformação, no processo de estar à frente, assim como os conselhos Regionais,
o que considera algo muito relevante.
Para
ele, na classe contábil, alguns se despertaram para isso, outros não. Mas é
necessário que mais pessoas despertem, até porque estamos num ambiente de alta
tecnologia, no qual a informação é muito importante. É necessário saber buscar e
construir a informação, para tomar decisões fundamentadas.
Fernando
de Almeida disse acreditar que a empresa ser inclusiva é muito importante, mas questiona
o que é ser inclusivo? “Ser inclusivo é você contratar pessoas com deficiência?
Ser inclusivo é contratar mulheres? Contratar analfabetos? Acho que não, isso é
só a porta de entrada, precisa ver o que é feito com eles, ou seja, passou
dois, três, quatro anos, eles têm ascensão? Conseguiram cargos de liderança num
nível proporcional? Ou seja, os analfabetos, continuam analfabetos ou tiveram a
oportunidade, também, de se desenvolverem, também de ter cargos melhores por
meio do acesso ao aprendizado”.
Para
ele, essas questões são fundamentais para se ter claro o processo de inclusão
social, pois o processo de inclusão social passa por isso. Não basta colocar
uma cadeira no cantinho, pagar salário mínimo e falar, fiz a inclusão.
O
professor destaca que não é só um desafio para as empresas, é um desafio para
governos também. “Sim, é um desafio para toda a sociedade. Quando falamos em
sociedade, às vezes, se culpa o governo, Mas é preciso questionar. O que
aconteceu no Rio Grande do Sul, a culpa toda é do governo do Estado?... a culpa
é da prefeitura?... a culpa é do governo federal?... Na verdade, a culpa é de
toda a sociedade, não pela chuva, mas por não tratar a natureza como se deve, não fechar os locais de saída de água.
Temos cada vez a cidade com menos capacidade de absorção de água, faltam políticas
preventivas. Então, a responsabilidade é do governo, das empresas, da sociedade
civil, enfim, do conjunto de pessoas, sendo isso que temos que aprender”,
afirmou.
Fernando
de Almeida defende que, como sociedade temos que buscar formas de melhorar o
meio ambiente. Para ele, tem muita gente fazendo muita coisa interessante,
muita coisa colaborativa nesse sentido, como tem também setores ou pessoas
jurídicas e físicas que não fazem. Por isso que temos que implantar as normas
IFRS S1 e S2, que vêm justamente para colaborar nesse sentido.
Segurança
de dados
A
doutora Ticiane Santos, Professora Adjunta da Universidade Federal Rural da
Amazônia (UFRA), Contadora, Doutorado e Mestrado em Administração, membro do
Grupo Latinoamericano de Emisores de Normas de Información Financiera (Glenif)
e da Comissão de Investigação Contábil da Associação Interamericana de
Contabilidade (AIC), destacou que, por décadas, os padrões de contabilidade
financeira forneceram uma linguagem comum para empresas e investidores falarem
sobre desempenho financeiro. No entanto, a contabilidade tradicional foi
desenvolvida em um mundo no qual os ativos tangíveis representavam a maior
parte da avaliação de mercado das empresas.
Para
ela, na economia atual, as questões de sustentabilidade são questões de
negócios globais que afetam a condição financeira, o desempenho operacional e o
valor empresarial das empresas. Por isso, a segurança de dados, por exemplo, é uma
questão social importante para empresas do setor de software. A profissão
contábil necessita, ainda, gerenciar conflitos de interesses. “É uma questão de
governança. É fundamental para um banco de investimento, por exemplo, pois para
integração das informações financeiras ou pré-financeiras é indispensável mais
transparência, além de normas para implantação.