A partir desta terceira edição da coluna "Raízes Contábeis: Uma Trajetória Histórica", convidaremos pesquisadores para compartilhar suas motivações e experiências na área da História da Contabilidade. O objetivo deste convite é divulgar os estudos de pesquisadores brasileiros nessa área, além de divulgar as descobertas desenvolvidas em suas pesquisas. Com isso, buscamos estabelecer conexões com potenciais

Temos a honra de contar com a colaboração de nossa primeira convidada para apresentar sua trajetória na pesquisa. A Professora Adriana Rodrigues Silva está vinculada ao Instituto Politécnico de Santarém, em Portugal, e atualmente é membro do Centro de Investigação em Contabilidade e Fiscalidade (CICF-IPCA).. Seu interesse de pesquisa concentra-se na contabilidade crítica e interpretativa, com ênfase na história da contabilidade.

Trajetória na Pesquisa da História da Contabilidade

Minha motivação para mergulhar na pesquisa histórica surgiu durante meu doutorado, ao cursar a disciplina de história da contabilidade. A experiência foi transformadora. Até aquele momento, minha visão sobre a contabilidade estava mais centrada em aspectos técnicos e contemporâneos, mas, ao explorar as origens e o desenvolvimento histórico da contabilidade, percebi o quanto essa área tinha a oferecer. Mais do que entender números, passei a ver a contabilidade como uma lente pela qual podemos compreender contextos econômicos, políticos e sociais ao longo do tempo.

Essa primeira fagulha de interesse logo foi alimentada por conversas intelectuais com colegas e professores. Um desses momentos-chave aconteceu quando um professor da área de economia, após ler um trabalho que eu desenvolvi para a disciplina de história da contabilidade do doutorado, sugeriu que eu aprofundasse o tema para uma possível tese. Suas palavras ressoaram em minha mente, pois ele enxergou a relevância de algo que, até então, parecia restrito a um contexto de sala de aula. Esse encorajamento foi o impulso inicial que me fez reconsiderar meus rumos acadêmicos e abraçar a história da contabilidade como foco de pesquisa.

Desde então, tenho me dedicado a investigar a contabilidade sob uma perspectiva histórica, com ênfase, principalmente, em questões sociais. Um dos meus principais trabalhos, desenvolvido durante o doutorado, aborda a contabilidade no regime de tutela dos "Africanos Livres" no Brasil. Essa pesquisa foi um marco na minha trajetória, não apenas pelo tema em si, mas pela forma como o estudo da história contábil me transformou enquanto pesquisadora.

 A Pesquisa em História da Contabilidade: Desafios e Aprendizados

Desenvolver uma pesquisa histórica sendo uma contadora de formação foi desafiante. A natureza da pesquisa histórica exige uma compreensão profunda de contextos econômicos, políticos e sociais, o que, inicialmente, estava fora da minha zona de conforto. Embora eu contasse com uma formação sólida em contabilidade e conhecimento sobre os processos de coleta e análise de dados, percebi que a pesquisa histórica demandava habilidades adicionais. Tive que buscar formações complementares, como participar de aulas e eventos da área de história, o que contribuiu para meu aprendizado sobre a coleta de dados históricos e, mais importante, sobre a interpretação desses dados em seus contextos históricos. Esse processo me ensinou que a pesquisa em contabilidade não pode ser isolada dos contextos em que ela se insere.

Durante a minha pesquisa de campo no Arquivo Nacional do Rio de Janeiro e outros arquivos, tive a oportunidade de lidar diretamente com documentos referentes à categoria dos “Africanos Livres”, escravizados que receberam a liberdade condicional durante o período de 1818 a 1864. Foi fascinante e ao mesmo tempo angustiante perceber como a contabilidade foi usada como uma ferramenta de controle social e governança. Os registros contábeis, em seus números frios e detalhados, contavam histórias de vidas marcadas pela opressão e pelo disciplinamento social.

O desenvolvimento de estudos históricos, especialmente em um período tão delicado da história brasileira como o da escravidão, exigiu não apenas rigor acadêmico, mas também uma sensibilidade particular para interpretar e contextualizar os dados. A contabilidade, naquele caso, se apresentou como uma forma de materializar as ideologias dominantes de uma época.

O meu trabalho de tese foi reconhecido e, em 2018, fui premiada com a bolsa Margit F. and Hanns Martin Schoenfeld Scholarship atribuída pela American Accounting Association (AAA). Foi uma honra imensa receber esse prêmio, não apenas pelo mérito individual, mas porque destaca a relevância de uma área de pesquisa que ainda é negligenciada por muitos. Receber esse prêmio me deu não apenas visibilidade, mas também um incentivo para continuar explorando esse campo e para incentivar outros e novos pesquisadores a fazer o mesmo.

Inspiração e Contribuições para a Comunidade Acadêmica

Ao longo da minha carreira, um dos aspectos mais gratificantes tem sido a oportunidade de inspirar jovens pesquisadores a explorar o campo da história da contabilidade. Alguns dos meus estudantes, tanto de graduação quanto de pós-graduação, têm demonstrado interesse por essa área, e alguns já foram reconhecidos com prêmios por suas pesquisas, tanto em âmbito nacional quanto internacional. Saber que minha paixão por esse tema tem a capacidade de motivar outras pessoas a contribuir para o desenvolvimento do campo é, sem dúvida, uma das maiores recompensas que poderia receber como professora e pesquisadora.

Além disso, tenho tido a honra de me envolver na organização de eventos que promovem a pesquisa em história da contabilidade. Um exemplo disso é o VII Encontro Internacional Luca Pacioli de História da Contabilidade, que acontecerá em novembro de 2024, no formato híbrido. Com submissões abertas até o dia 30/09/2024, esse evento é organizado pela Associação Portuguesa de Técnicos de Contabilidade (APOTEC), com o apoio de diversas instituições, entre elas o Instituto Politécnico de Santarém, em Portugal. Esses encontros são fundamentais para fomentar o diálogo entre pesquisadores, criar redes de colaboração e incentivar a produção de conhecimento em uma área tão promissora e ainda pouco explorada.

Tenho um compromisso contínuo com a promoção e o desenvolvimento desse campo de estudo, seja por meio da publicação de artigos, da organização e participação em eventos, ou do incentivo direto a jovens pesquisadores. Acredito firmemente que juntos podemos expandir as fronteiras do conhecimento na história da contabilidade, construindo um campo de pesquisa mais diversificado, inovador e profundo.

Um dos meus maiores desejos é reunir os pesquisadores da América Latina que se dedicam à história da contabilidade em uma rede colaborativa, onde possamos compartilhar nossas descobertas, desafios e inovações. Acredito que, ao unirmos esforços, poderemos dar maior visibilidade às pesquisas realizadas na região e fortalecer nossa contribuição para o cenário internacional da área.

O ICBR agradece a Professora Adriana Silva pela colaboração com a coluna “Raízes Contábeis: Uma trajetória histórica”.

Tem interesse por discussões na área da História da Contabilidade e deseja divulgar sua pesquisa nesta coluna?

Entre em contato. Juntos reuniremos esforços para o fortalecimento deste campo de pesquisa no Brasil.

 

Thais Alves Lira (thaislira@ufpr.br)

Professora do Magistério Superior da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (UNIFESSPA). Doutoranda em Contabilidade no Programa de Pós-Graduação em Contabilidade (PPGCONT) da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Mestre em Contabilidade pelo Programa de Pós-Graduação em Contabilidade (PPGCONT) da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Especialista em Gestão e Negócios pelo Instituto Federal do Paraná (IFPR). Bacharela em Ciências Contábeis pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Integrante do Laboratório de Educação e Pesquisa Contábil (LEPEC). Coordenadora Adjunta da Área Temática de História da Contabilidade do Congresso USP em Contabilidade.