Na sexta edição da coluna “Raízes Contábeis: Uma Jornada Histórica” contamos com a colaboração do nosso convidado Me. Francisco Gomes para compartilhar a sua trajetória no campo da história da contabilidade. O contador Francisco Gomes é Bacharel em ciências contábeis pela Universidade Federal do Pará e Mestre em contabilidade pela Universidade Federal do Paraná (Thais Lira, colunista)

 

Uma Jornada no Tempo: Revelando os Praticantes da Contabilidade do Século XIX

Tudo começou durante a graduação, quando me vi diante do desafio de escolher um tema para o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). Inicialmente, minha ideia era pesquisar sobre o profissional contábil contemporâneo, mas uma conversa com a professora Dra. Angélica Vasconcelos mudou completamente o rumo da minha trajetória acadêmica. Ela me fez questionar: “Antes mesmo de existir o título de Contador, quem eram as pessoas que praticavam a contabilidade? Como elas atuavam e qual era o seu papel na sociedade?”

Esses questionamentos foram como uma chave que abriu portas para um universo completamente novo. Foi assim que decidi mergulhar no período colonial brasileiro, em busca das raízes da prática contábil no país. Quem eram esses praticantes? Como estavam organizados? Como eles registravam as transações comerciais, contribuíam para a organização comercial da época? Essas perguntas me levaram a uma jornada fascinante, que começou no TCC e se estende até hoje.

Desde então, minha motivação tem sido compreender o papel do profissional contábil ao longo da história brasileira. Percebi que diferentes períodos e cenários moldaram a atuação desses profissionais, influenciando não apenas a evolução das práticas contábeis, mas também seu impacto nas esferas econômica, social e política. Meu foco tem sido investigar como os contadores desempenharam funções estratégicas em diversos contextos, desde o período imperial até a consolidação da profissão no século XX.

Cada descoberta ao longo dessa jornada me mostrou que a contabilidade não é apenas uma técnica ou uma ferramenta, mas uma narrativa viva da história do Brasil. Os registros contábeis são como testemunhas silenciosas de transformações econômicas, conflitos sociais e mudanças políticas. E é essa riqueza histórica que me inspira a continuar pesquisando e explorando a história da contabilidade.

 

Fragmentos do Passado: Os Desafios de Pesquisar a História da Contabilidade

Quando decidi investigar os requisitos exigidos pelo mercado aos praticantes da contabilidade na segunda metade do século XIX no estado do Pará, não imaginava que estaria embarcando em uma jornada repleta de desafios e descobertas. O artigo que resultou dessa pesquisa foi um processo que me ensinou tanto sobre a história da contabilidade quanto sobre a arte de pesquisar.

O primeiro desafio foi encontrar fontes primárias confiáveis. Para isso, busquei no acervo de periódicos da BNDigital, uma plataforma que reúne jornais, revistas e publicações seriadas do Brasil imperial. A ideia de explorar os primeiros jornais da província do Pará parecia promissora, mas logo me deparei com um obstáculo: a qualidade da digitalização. Muitos textos estavam desbotados, manchados ou ilegíveis, o que tornava a busca por palavras-chave uma tarefa desafiadora.

Outro desafio foi a linguagem da época. Os jornais do século XIX utilizavam termos obsoletos ou caídos em desuso. Palavras como “caixeiro de escritório” (um termo usado para designar auxiliares de contabilidade) ou “guarda-livros” (responsável pela escrituração dos livros diário e razão, elaboração do balanço geral dos negócios etc.) exigiam uma imersão no contexto histórico para serem corretamente interpretadas. Além disso, era também um desafio observar, nos jornais da época, o trabalho de crianças atuando no comércio, uma prática comum e pouco questionada naquele contexto histórico. A prática contábil, por sua vez, era algo que se aprendia no dia a dia, muitas vezes por meio da experiência prática e da observação.

Desta forma, foi necessário estudar não apenas a terminologia, mas também o cenário social, político e econômico da época. Aprendi que, para entender as práticas contábeis do passado, era preciso compreender o mundo em que elas estavam inseridas.

Para um aluno de graduação iniciando uma pesquisa histórica na Contabilidade, esses desafios podem parecer intimidadores. Diferente das pesquisas convencionais em contabilidade, que lidam com dados estruturados e métodos quantitativos, a pesquisa histórica exige um olhar atento para documentos fragmentados e muitas vezes incompletos. No início, eu me sentia inseguro, questionando se seria capaz de extrair informações relevantes daqueles registros. Mas, aos poucos, com o auxílio da minha orientadora fui desenvolvendo habilidades essenciais: a paciência para analisar cada detalhe, a capacidade de correlacionar diferentes fontes e a sensibilidade para interpretar o contexto por trás dos números e das palavras.

Um dos momentos mais marcantes foi quando começamos a organizar os achados em tabelas temáticas. À medida que agrupávamos os dados, fomos percebendo como os anúncios de jornal do século XIX descreviam as qualificações esperadas de um 'praticante de contabilidade'. Essas informações, que estavam escondidas entre anúncios de vendas e notícias locais, revelaram muito sobre como a profissão era vista na época. Foi como encontrar uma peça de um quebra-cabeça que nos ajudou a montar uma imagem mais clara do passado.

Os aprendizados ao longo desse percurso me mostraram que a contabilidade não pode ser reduzida a um conjunto de normas e técnicas. Ela é um campo dinâmico, moldado por fatores políticos, econômicos e sociais. Além disso, reforçou a importância do rigor metodológico e da curiosidade. Aprendi que, por trás de cada registro contábil, há uma história esperando para ser contada – e que cabe a nós, pesquisadores, desvendar essas narrativas.

Hoje, olho para trás e vejo como esses desafios moldaram minha abordagem de pesquisa. Eles me ensinaram a valorizar cada detalhe, a buscar conexões entre o passado e o presente e a encarar os obstáculos como oportunidades de aprendizado.

Construindo Pontes: Como o Passado Inspira o Futuro da Contabilidade

A pesquisa em História da Contabilidade é muito mais do que um resgate do passado; é uma jornada que nos permite compreender como a profissão contábil se consolidou, enfrentou desafios e se reinventou ao longo do tempo. Cada documento analisado, cada registro decifrado, é uma peça de um quebra-cabeça que nos ajuda a entender o papel fundamental que os contadores desempenharam em diferentes contextos históricos. Ao estudar esses profissionais, não apenas revisitamos o passado, mas também iluminamos o presente, mostrando como a contabilidade vai além dos números e influencia decisões econômicas, políticas e institucionais.

Minhas pesquisas têm como objetivo repensar a narrativa tradicional da contabilidade, questionando mitos sobre sua evolução e destacando a diversidade de atores que moldaram essa trajetória. Ao investigar práticas e instituições contábeis do passado, descobri padrões e desafios que ainda ecoam na profissão atual. Essas descobertas nos permitem refletir sobre questões cruciais, como regulação, ética e identidade profissional. Acredito que essa abordagem histórica é essencial para que os contadores compreendam sua profissão de maneira mais crítica e contextualizada, enxergando-a como um campo dinâmico e em constante transformação.

Um dos aspectos que mais me motiva é o impacto que a História da Contabilidade pode ter na formação de novos profissionais. Quando os estudantes conhecem o percurso da profissão, eles desenvolvem uma visão mais profunda sobre a evolução das práticas contábeis e sua relação com o ambiente institucional. Isso não apenas os capacita a tomar decisões mais informadas, mas também os ajuda a enxergar a contabilidade como um campo que responde às mudanças sociais e econômicas.

Para os jovens pesquisadores que estão ingressando na área, meu conselho é: sejam persistentes e curiosos. A pesquisa histórica exige paciência, mas as recompensas são imensuráveis. Explorar documentos antigos, interpretar registros fragmentados e reconstruir narrativas sobre a contabilidade do passado não apenas fortalece o campo acadêmico, mas também oferece novas perspectivas sobre a prática contábil. Mais do que nunca, precisamos de pesquisadores dispostos a questionar, inovar e trazer à luz histórias que ainda não foram contadas.

Se você se interessa por essa jornada e quer conhecer mais sobre os requisitos exigidos aos praticantes da contabilidade no século XIX, convido você a ler meu artigo “Requisitos exigidos pelo mercado aos praticantes da contabilidade na segunda metade do século XIX”, publicado na revista Contabilidade & Finanças. Nele, exploro como os profissionais da época eram avaliados e como suas práticas refletiam o contexto histórico em que viviam. O artigo está disponível em: https://doi.org/10.1590/1808-057x201909470.

 

O ICBR agradece ao Me. Francisco Gomes pela colaboração com a coluna “Raízes Contábeis: Uma trajetória histórica”.

Tem interesse por discussões na área da História da Contabilidade e deseja divulgar sua pesquisa nesta coluna?

Entre em contato. Juntos reuniremos esforços para o fortalecimento deste campo de pesquisa no Brasil.

 

Thais Alves Lira (thaislira@ufpr.br)

Professora do Magistério Superior da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (UNIFESSPA). Doutoranda em Contabilidade no Programa de Pós-Graduação em Contabilidade (PPGCONT) da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Mestre em Contabilidade pelo Programa de Pós-Graduação em Contabilidade (PPGCONT) da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Especialista em Gestão e Negócios pelo Instituto Federal do Paraná (IFPR). Bacharela em Ciências Contábeis pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Integrante do Laboratório de Educação e Pesquisa Contábil (LEPEC - UFPR).