
A sustentabilidade da carreira contábil passa por uma mudança de postura dos profissionais diante da transformação tecnológica, mas também exige pensamento crítico, habilidades interpessoais e equilíbrio entre vida profissional e pessoal. Essa foi uma das principais conclusões apresentadas pelo professor Dr. Cláudio de Araújo Wanderley no curso “Profissão em Transformação: Sustentabilidade da Carreira Contábil”, realizado pelo Instituto dos Contadores do Brasil (ICBR), com mediação do professor Dr. Iago França Lopes, vice-presidente de Desenvolvimento Profissional do ICBR e professor da UFRJ.
Durante o encontro, Wanderley destacou que a velocidade das mudanças tecnológicas, especialmente com o avanço da inteligência artificial, está alterando atividades, competências e trajetórias profissionais. Para ele, a questão não é apenas aprender a utilizar novas ferramentas, mas desenvolver a capacidade de compreender cenários, fazer perguntas, tomar decisões e lidar com situações complexas. “Você precisa ter as habilidades mais interpessoais, de pensamento crítico, mas, ao mesmo tempo, precisa também ter o conhecimento técnico”, afirmou o professor. Segundo ele, pesquisas realizadas com CFOs, controllers, associações profissionais e outros representantes do mercado indicam uma valorização crescente dessas competências.
Ao discutir o impacto da inteligência artificial e da automação, o professor observou que a tecnologia vem derrubando barreiras entre áreas e permitindo que atividades antes concentradas na Contabilidade sejam realizadas ou acessadas por profissionais de outros setores.
O ritmo de transformação também se tornou mais acelerado. Segundo Wanderley, conhecimentos tecnológicos que há poucos anos eram vistos como essenciais podem rapidamente perder espaço diante de novas ferramentas. Nesse contexto, apostar exclusivamente em uma tecnologia específica pode ser insuficiente para uma carreira de longo prazo.
A alternativa, segundo o professor, é desenvolver competências que permaneçam relevantes mesmo diante da mudança das ferramentas. Entre elas estão pensamento crítico, resolução de problemas complexos, capacidade de lidar com diferentes perspectivas e gerenciamento de conflitos.
“É muito mais difícil para a gente, na universidade, tentar desenvolver essas habilidades nas nossas aulas”, afirmou Wanderley, ao comparar o desenvolvimento das competências técnicas com o das chamadas soft skills.
O professor também ressaltou que o conhecimento técnico não perde importância. A formação contábil precisa preservar os fundamentos da profissão, justamente porque eles permitem ao profissional interpretar, questionar e avaliar os resultados produzidos por sistemas e ferramentas tecnológicas.
Outro ponto abordado foi a transformação da identidade profissional do contador. Para Wanderley, a profissão vem ampliando sua participação nos processos de gestão e tomada de decisão, movimento que já ocorre há algumas décadas.
A contabilidade, nesse cenário, deixa de ser percebida apenas como uma área responsável por registros e obrigações e passa a contribuir de forma mais direta para a análise de desempenho e para as decisões das organizações.
Essa mudança, porém, não acontece de maneira uniforme. O professor observou que empresas e profissionais estão em diferentes estágios de transformação. Enquanto algumas organizações adotam novas tecnologias e modelos de trabalho, outras ainda mantêm práticas tradicionais.
Esse cenário aumenta a importância da capacidade de adaptação do profissional. Em vez de depender exclusivamente de uma trajetória hierárquica dentro de uma única organização, o contador tende a enfrentar transições entre funções, empresas e até diferentes áreas de atuação.
A transformação tecnológica também traz consequências para a formação dos novos profissionais. Wanderley chamou atenção para o fato de que atividades tradicionalmente realizadas no início da carreira — como conciliações e rotinas operacionais — estão entre as mais suscetíveis à automação.
Isso cria um desafio para a formação profissional: justamente as tarefas que proporcionavam ao iniciante a oportunidade de “aprender fazendo” podem deixar de existir ou ser reduzidas.
Na avaliação do professor, as universidades terão de incorporar parte dessas experiências e preparar os estudantes não apenas para executar procedimentos, mas também para compreender os fundamentos que estão por trás deles.
O processo de transformação também exige uma aproximação entre formação acadêmica e realidade profissional, sem abrir mão do desenvolvimento do pensamento crítico. Para Wanderley, a universidade poderá assumir papel ainda mais importante em um ambiente no qual as organizações deixam de oferecer algumas das experiências tradicionais de aprendizagem.
Outro aspecto destacado durante o encontro foi a necessidade de aprendizado ao longo de toda a carreira. Em um ambiente no qual tecnologias, processos e modelos de negócios mudam rapidamente, a formação profissional não pode ser tratada como uma etapa encerrada com a graduação.
O professor também chamou atenção para um fenômeno particularmente importante: o profissional precisa estar disposto não apenas a aprender coisas novas, mas, em determinados momentos, a abandonar conhecimentos ou práticas que perderam relevância.
A sustentabilidade da carreira, portanto, está relacionada à capacidade de se reposicionar continuamente diante das transformações.
A discussão chegou também ao impacto das transformações sobre a vida pessoal dos profissionais. Ao responder a uma questão apresentada por Iago Lopes sobre bem-estar, Wanderley afirmou que o equilíbrio entre carreira e vida pessoal é parte fundamental da sustentabilidade profissional.
“A carreira contábil é uma carreira muito dura. Tradicionalmente é uma carreira que demanda muito as pessoas, a pressão, o tempo, o equilíbrio. Isso tem um peso muito forte na vida das pessoas”, afirmou.
O professor relatou que o tema apareceu de forma sensível nas entrevistas realizadas para a pesquisa que fundamenta suas análises. Segundo ele, profissionais e organizações estão começando a reconhecer que modelos de trabalho que sacrificam sistematicamente o bem-estar podem comprometer a própria capacidade de atrair e manter talentos.
“Não dá para falar em carreira sustentável, você ter essa qualidade de vida, você não conseguir ter no final da sua carreira, você estar chorando porque não conseguiu”, disse Wanderley.
Na avaliação apresentada durante a palestra, o equilíbrio entre vida profissional e pessoal tende a ganhar peso nas escolhas dos profissionais, especialmente diante de um mercado no qual determinadas organizações enfrentam dificuldades para atrair pessoas qualificadas.
Tecnologia como ferramenta, não como substituta do profissional
Um exemplo prático surgiu durante a participação de uma integrante da audiência, que relatou sua própria trajetória de duas décadas na Contabilidade e o retorno à área depois de um período de afastamento. Ela contou que passou a utilizar inteligência artificial como ferramenta de apoio no trabalho.
O relato reforçou uma das questões centrais apresentadas por Wanderley: saber utilizar tecnologia depende também da capacidade de formular boas perguntas e avaliar criticamente as respostas obtidas.
A discussão converge para uma visão na qual a relação entre profissional e tecnologia pode ser de complementaridade. O contador que domina os fundamentos da profissão e desenvolve capacidade analítica pode utilizar as novas ferramentas para ampliar sua atuação, em vez de simplesmente competir com elas.
A apresentação de Cláudio Wanderley foi baseada em pesquisas realizadas com profissionais de diferentes contextos. Segundo os materiais do ICBR, o estudo reúne evidências quantitativas e qualitativas de contadores e controllers brasileiros e estrangeiros e procura compreender como profissionais e organizações estão reagindo às transformações do trabalho.
Doutor em Contabilidade pela The Management School, da Universidade de Sheffield, no Reino Unido, Wanderley é professor associado da Universidade Federal de Pernambuco e pesquisador bolsista PQ/CNPq nível 2. Também possui experiência acadêmica internacional e atuação em entidades da área contábil.
A mediação foi realizada por Iago França Lopes, professor adjunto da UFRJ e vice-diretor de Desenvolvimento Profissional do ICBR, que conduziu o diálogo sobre tecnologia, formação, associações profissionais, mudanças geracionais e bem-estar.
Ao final, a discussão deixou como principal eixo a necessidade de compreender a transformação da Contabilidade como um processo que envolve tecnologia, educação, organizações e, sobretudo, pessoas. Para além de acompanhar ferramentas que mudam rapidamente, a sustentabilidade da carreira depende da capacidade de aprender continuamente, interpretar cenários, desenvolver novas competências e preservar o equilíbrio necessário para permanecer na profissão ao longo do tempo.


