
A decisão de uma empresa de publicar ou não informações financeiras relacionadas a clima e sustentabilidade, mesmo diante do caráter voluntário do reporte, continua exigindo diligência e responsabilidade dos conselhos de administração. Essa foi uma das principais conclusões do Painel 3 do Evento ICBR-ESG 2026, realizado pelo Instituto dos Contadores do Brasil (ICBR), com participação Roberto Souza Gonzalez, Tomás Carmona e Fernanda Helena Gonçalves, com mediação de Ana Luci Grizzi.
Ao discutir o papel dos conselhos diante das mudanças regulatórias e dos riscos climáticos, Fernanda Helena Gonçalves resumiu a questão em uma frase que se tornou um dos principais recados do painel: “voluntário não significa irrelevante”. Para ela, a decisão de reportar ou não deve receber o mesmo nível de diligência dedicado às demais decisões estratégicas, considerando possíveis impactos sobre risco, acesso a capital, confiança do mercado e geração de valor no médio e longo prazo.
A especialista também destacou que a qualidade e a maturidade das informações precisam ser consideradas antes da divulgação. Segundo Fernanda, não basta produzir um relatório: os dados de clima e sustentabilidade devem estar conectados às decisões de investimento, ao planejamento e à estratégia empresarial. “O risco climático, ele tem que conversar com o mapa de riscos e gestão da companhia”, afirmou.
Na avaliação de Ana Luci Grizzi, mediadora do painel, o desafio para os conselhos é justamente transformar essas informações em elementos efetivos de tomada de decisão. Ao longo do debate, ela ressaltou a necessidade de que os dados sobre clima e natureza sejam incorporados aos processos de governança, riscos e planejamento estratégico, e não tratados apenas como uma obrigação de divulgação. A proposta do painel foi discutir, sob uma perspectiva prática, como os conselhos podem supervisionar riscos, oportunidades e estratégias relacionados à sustentabilidade.
O administrador e especialista em mercado de capitais Roberto Souza Gonzalez reforçou o alerta. Para ele, a eventual decisão de não publicar informações também precisa ser fundamentada pelo conselho. “Não é porque é facultativo que é irrelevante, não é porque é facultativo que não tem responsabilidade”, afirmou durante o painel.
Gonzalez sustentou que os riscos climáticos e socioambientais precisam ser tratados como parte da gestão de riscos da organização. Se determinado risco pode produzir consequências financeiras no futuro, ignorá-lo pode trazer consequências para a própria companhia e para os responsáveis por sua governança. “Independente de ser voluntário ou não, o conselho tem que entender que sustentabilidade de agora não é simplesmente um tema não financeiro que não vai impactar o financeiro”, disse. Para o especialista, informações que hoje parecem não financeiras podem produzir efeitos econômicos posteriormente e, por isso, não devem ser delegadas exclusivamente a grupos de trabalho ou áreas específicas.
Presidente do Conselho da Climate Ventures e especialista em estratégia e governança, Tomás Carmona destacou que a evolução da agenda de sustentabilidade nas empresas precisa chegar de maneira mais consistente aos conselhos e comitês. Para ele, transparência é um princípio de governança e os temas de clima e natureza devem ser avaliados a partir de sua materialidade e de seus efeitos sobre a continuidade dos negócios.
Carmona classificou o conselho como “guardião da estratégia” e defendeu que riscos climáticos e ambientais não sejam tratados apenas no nível operacional. Segundo ele, esses riscos já estão se materializando e tendem a ganhar importância, afetando desde operações e cadeias de suprimentos até decisões estratégicas.
A integração também foi apontada como essencial para evitar que a sustentabilidade se transforme em uma estrutura paralela dentro das empresas. “Eu gosto de matriz de risco, aonde os termos de sustentabilidade precisam estar contemplados”, afirmou Carmona. O mesmo raciocínio, segundo ele, deve valer para estratégia e governança: sustentabilidade precisa estar dentro dessas estruturas, e não isolada em uma agenda própria.
Outro ponto de convergência do painel foi a necessidade de qualificação dos conselhos. Os participantes avaliaram que os administradores não precisam se transformar em especialistas em clima ou sustentabilidade, mas devem desenvolver conhecimento suficiente para questionar premissas, avaliar riscos e compreender as respostas apresentadas pelas áreas técnicas.
Fernanda defendeu que o conselheiro precisa “fazer boas perguntas”, avaliar a razoabilidade das premissas e exigir evidências confiáveis antes de aprovar informações que possam influenciar orçamento, valuation, investimentos e custo de capital.
Para Roberto Gonzalez, a preparação deve incluir treinamento, diversidade de conhecimentos nos conselhos e mecanismos de verificação. “Treinem, treinem, treinem”, resumiu ao defender que os conselheiros tenham condições de analisar informações socioambientais com o mesmo rigor aplicado aos dados contábeis e financeiros.
O debate também chamou atenção para a necessidade de controles internos capazes de dar confiabilidade aos dados de sustentabilidade. Ana Luci Grizzi observou que esses mecanismos ainda estão em construção globalmente e que as organizações precisam avançar na rastreabilidade, validação e controle das informações ambientais e climáticas.
A qualidade do reporte foi outro eixo do encontro. Gonzalez alertou que transparência não significa simplesmente divulgar o maior volume possível de informações. Para ele, o desafio está em identificar o que é efetivamente relevante para investidores, financiadores e para a própria competitividade da companhia. “Eu não posso pecar pela falta de informação e também não posso pecar pelo excesso de informação. Eu tenho que ter informação que seja relevante”, afirmou. A avaliação, segundo ele, deve considerar se determinado dado pode alterar decisões de investimento, acesso a capital, competitividade, licença para operar ou cadeia de valor.
A preocupação se estende à própria finalidade do reporte. Gonzalez lembrou que as informações previstas nos pronunciamentos de sustentabilidade estão relacionadas à tomada de decisão de investidores e ao vínculo entre sustentabilidade e informação financeira, o que exige foco e materialidade na comunicação.
Ao encerrar o painel, Tomás Carmona sintetizou um dos principais consensos construídos pelos participantes: sustentabilidade, clima e natureza não devem funcionar como uma estrutura independente dentro das organizações. “A palavra-chave é integração”, afirmou, defendendo que os temas sejam incorporados à estratégia, à cultura, à governança e à matriz de riscos.
A conclusão foi reforçada por Ana Luci Grizzi, que destacou como objetivo do debate contribuir para que os conselhos se qualifiquem e passem a tratar dados de clima e natureza com o mesmo rigor aplicado às informações financeiras.
Realizado em formato híbrido, o Painel 3 integrou a programação do Evento ICBR-ESG 2026 – CBPS 01 e 02: Gestão, Divulgação Financeira de Sustentabilidade e Governança nas Organizações. O encontro reuniu Roberto Souza Gonzalez, Tomás Carmona e Fernanda Helena Gonçalves, sob mediação de Ana Luci Grizzi, para discutir governança, clima, divulgação de riscos e o papel dos conselhos na construção de organizações mais resilientes e transparentes.



