
A necessidade de fortalecer a governança, aperfeiçoar os controles internos, adaptar a gestão às mudanças da Reforma Tributária e transformar a contabilidade em ferramenta estratégica para a tomada de decisões foi o principal destaque do curso "Contabilidade para Produtores Rurais e Empresas do Agronegócio – Cenário Atual e Tendências", promovido pelo Instituto dos Contadores do Brasil (ICBR). Durante o encontro, os especialistas Ricardo Massera e Rafael Luque Medina demonstraram que a profissionalização da gestão contábil será determinante para a sustentabilidade econômica e financeira das propriedades rurais e das empresas do agronegócio.
Ao longo da apresentação, os palestrantes ressaltaram que o agronegócio brasileiro vive um momento de profundas transformações, impulsionado pela modernização da atividade rural, pela evolução das normas contábeis, pela crescente adoção de tecnologias e pela implementação da Reforma Tributária.
De acordo com Ricardo Massera, a contabilidade deixou de cumprir apenas uma função fiscal para assumir papel estratégico na gestão dos negócios rurais. "O produtor precisa compreender que a contabilidade não serve apenas para atender obrigações legais. Ela é uma ferramenta de gestão, de geração de valor e de credibilidade perante bancos, investidores e parceiros."
Um dos temas centrais do curso foi a correta aplicação do CPC 29, que trata da contabilização dos ativos biológicos e dos produtos agrícolas. Os especialistas explicaram que a mensuração adequada do valor justo exige informações técnicas confiáveis e, para tanto, é essencial a integração entre o produtor e o profissional da contabilidade.
Para Rafael Luque Medina, esse processo depende de uma cultura de governança e de organização das informações dentro da propriedade rural. "O produtor precisa desenvolver uma mentalidade de compliance e governança. Toda informação da atividade produtiva deve chegar ao contador de forma clara e documentada para que os registros reflitam corretamente a realidade do negócio."
Os palestrantes alertaram que falhas na mensuração dos ativos, dos estoques e dos custos de produção podem comprometer a fidedignidade das demonstrações contábeis, gerar ressalvas em auditorias independentes e dificultar o acesso ao crédito.
Outro ponto amplamente debatido foi o impacto da Reforma Tributária sobre o agronegócio. Ricardo Massera e Rafael Luque Medina destacaram que produtores rurais precisarão revisar suas estruturas operacionais, tributárias e societárias antes da implantação definitiva do novo sistema.
De acordo com Medina, embora ainda existam definições pendentes sobre a regulamentação completa do IBS e da CBS, o momento exige planejamento antecipado. "Não existe mais espaço para decisões baseadas apenas na tradição. O produtor precisa construir cenários, avaliar impactos e definir estratégias antes que todas as mudanças entrem em vigor. Quem se preparar agora terá maior segurança para enfrentar a transição."
A discussão também abordou uma das dúvidas mais frequentes do setor: permanecer como produtor rural pessoa física ou migrar para pessoa jurídica. Os especialistas ressaltaram que a resposta depende das características de cada empreendimento, do volume de faturamento, do patrimônio, do acesso ao crédito, da sucessão familiar e do planejamento tributário.
Além dos aspectos fiscais, o curso evidenciou a crescente importância da governança corporativa, dos controles internos, da gestão de riscos, da sustentabilidade e da utilização de tecnologias como inteligência artificial e automação nos processos contábeis e de auditoria, tendências que vêm remodelando o ambiente de negócios do agronegócio brasileiro.
O Vice-Presidente Técnico da Diretoria Executiva do ICBR, Mário Shinzato, destacou que o fortalecimento da contabilidade no agronegócio representa um dos maiores desafios da profissão nos próximos anos. "O agronegócio é um dos principais motores da economia brasileira e exige profissionais cada vez mais preparados para interpretar normas, apoiar decisões estratégicas e contribuir para uma gestão transparente, sustentável e alinhada às constantes transformações regulatórias. A missão do ICBR é justamente proporcionar essa atualização permanente aos profissionais da contabilidade."
Ao final do encontro, ficou evidente que a evolução das normas contábeis, a digitalização dos processos, a Reforma Tributária e as novas exigências de governança deixam de ser apenas desafios regulatórios para se tornarem fatores essenciais de competitividade. Para especialistas e participantes, a qualidade da informação contábil será cada vez mais decisiva para ampliar a eficiência da gestão, facilitar o acesso ao crédito, atrair investimentos e assegurar a perenidade dos negócios no agronegócio brasileiro.

