
A gestão de riscos não deve ser vista apenas como um conjunto de controles ou ferramentas, mas como um processo contínuo que depende de cultura organizacional, envolvimento da alta administração e participação das áreas responsáveis pelos processos. Essa foi uma das principais mensagens apresentadas no curso “Gestão de Riscos e Controles Internos”, realizado pelo Instituto dos Contadores do Brasil (ICBR), com participação dos professores doutores Lucas Maragno, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Alex Mussoi Ribeiro, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), e mediação do professor Iago França Lopes, vice-presidente de Desenvolvimento Profissional do ICBR e professor da UFRJ.
Durante o encontro, os especialistas abordaram metodologias, estruturas de governança e práticas para identificação, avaliação, tratamento e monitoramento de riscos, destacando que controles internos eficientes precisam estar diretamente relacionados aos objetivos estratégicos das organizações.
Alex Mussoi Ribeiro ressaltou que a gestão integrada de riscos e controles internos tem como principal finalidade apoiar as organizações no alcance de seus objetivos. “O objetivo desse sistema de gestão de riscos e controles internos é direcionar as ações dos indivíduos que atuam junto à organização no sentido de analisar e tratar potenciais riscos”, explicou.
De acordo com o professor, as estruturas do COSO — referências internacionais em controles internos e gerenciamento de riscos — devem ser compreendidas como complementares. “Não existe uma espécie de COSO 2 que veio para entrar no lugar do COSO 1. O que temos são duas estruturas que se complementam”, destacou, ao explicar as diferenças entre a abordagem estratégica e a visão baseada em processos.
Um dos pontos centrais apresentados foi a importância da cultura organizacional. Para Alex Mussoi, a implantação de um modelo de gestão de riscos depende do chamado “tom do topo”, ou seja, do compromisso da liderança em estabelecer valores, políticas e práticas que sejam incorporados por toda a organização.
“Se a alta administração não comprar a ideia, fica difícil. A gestão de riscos tira as pessoas da zona de conforto, mas no final das contas traz benefícios importantes”, afirmou o professor, ao compartilhar experiências em projetos realizados em organizações públicas e privadas.
Na sequência, Lucas Maragno destacou que a gestão de riscos deve ser entendida como um processo cíclico, capaz de promover melhorias contínuas. “Você começa identificando os objetivos ou entendendo o contexto da organização e, no final, monitora todo esse processo: identificação, avaliação, resposta, informação, comunicação e monitoramento”, explicou.
O professor também chamou atenção para um desafio comum nas organizações: a criação de uma cultura de risco antes mesmo da adoção de sistemas sofisticados. “Às vezes as pessoas pensam que o sistema vai resolver tudo, mas especificamente na gestão de riscos a cultura do risco, das pessoas olharem para o risco, é importante”, afirmou.

Entre os temas tratados estiveram o mapeamento de processos, identificação de riscos operacionais, construção de matrizes de risco, definição de apetite ao risco, planos de ação e mecanismos de monitoramento. Os especialistas destacaram que ferramentas como análise SWOT, fluxogramas e reuniões de brainstorming podem ser utilizadas de acordo com o nível de maturidade de cada organização.
Durante o debate, o mediador o Professor Dr. Iago França Lopes questionou como ocorre, na prática, a implementação dos modelos de gestão de riscos considerando a realidade das organizações e os desafios de mudança cultural.
Em resposta, Alex Mussoi Ribeiro destacou que a implementação é um processo gradual e depende de capacitação, envolvimento das pessoas e construção de confiança. “Não é um processo fácil, mas no final normalmente há um reflexo positivo. Eu nunca ouvi falar de alguém que se arrependeu de ter implementado uma gestão de riscos”, afirmou.
Lucas Maragno complementou que o primeiro passo não é necessariamente investir em grandes sistemas, mas criar conhecimento interno. “Primeiro é criar uma cultura para que as pessoas saibam construir, entender e identificar o risco; depois começar com ferramentas básicas”, explicou.
Ao encerrar o encontro, os especialistas reforçaram que a gestão de riscos deve ser incorporada como parte da estratégia organizacional, contribuindo para processos mais eficientes, redução de vulnerabilidades e decisões mais fundamentadas.
A iniciativa integra as ações do ICBR voltadas à capacitação profissional e ao fortalecimento do papel estratégico da contabilidade nas organizações, ampliando o debate sobre governança, controles internos e melhores práticas de gestão.




