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A qualidade das informações de sustentabilidade começa muito antes da publicação de um relatório: depende de processos bem estruturados, controles internos eficazes, gestão de riscos e dados rastreáveis. Essa foi uma das principais conclusões do painel “Governança em Ação: Processos e Controles”, realizado pelo Instituto dos Contadores do Brasil (ICBR), com participação de Denys Roman, Leonardo Dutra e Giovani Nicoletti Polli e mediação de Marcelo Medeiros. O debate integrou o evento ICBR-ESG 2026 – CBPS 01 e 02, realizado em 21 de agosto.
Ao abrir a discussão, Marcelo Medeiros colocou no centro do debate uma questão que permeou todo o painel: como transformar estruturas formais de governança em processos, responsabilidades e controles capazes de produzir informações confiáveis para a tomada de decisão. A resposta dos especialistas apontou para a necessidade de as empresas conhecerem a origem dos dados, identificarem riscos e oportunidades, definirem responsabilidades e estabelecerem fluxos de informação que cheguem de forma adequada aos órgãos de governança.
Para Denys Roman, um dos principais problemas está na distância entre a governança que existe no papel e aquela que efetivamente funciona no cotidiano das organizações. Segundo ele, não basta criar conselhos, comitês, políticas e procedimentos se os processos não estiverem desenhados e conectados aos riscos relevantes. “O problema não é relatório. O problema é ter o processo e papeis estabelecidos.”
Roman defendeu que as organizações precisam mapear toda a cadeia de informações, desde o momento em que o dado nasce até sua utilização por quem toma decisões. O processo, segundo ele, deve ser analisado tanto de cima para baixo quanto no sentido inverso, para garantir que as informações produzidas sejam efetivamente úteis ao processo decisório.
O especialista também chamou atenção para um aspecto que ganha importância diante das exigências de divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade: os riscos não necessariamente estão dentro dos limites diretos da companhia. Eles podem estar na cadeia de valor, em fornecedores, clientes ou outros parceiros.
A discussão levou ainda ao papel dos controles internos e da asseguração. Leonardo Dutra destacou que a diferença entre uma informação apenas divulgada e uma informação submetida a procedimentos de asseguração está diretamente relacionada à robustez do ambiente de controle e à capacidade de rastrear como o dado foi produzido.
“Eu acho que o caro é a insegurança da informação”, afirmou Dutra, ao discutir os custos associados à asseguração. Para ele, o debate não deveria se limitar ao preço do trabalho de auditoria, mas considerar o risco que investidores e demais usuários assumem quando tomam decisões com base em informações que não passaram por processos adequados de verificação.
Dutra explicou que, em um processo de asseguração, o auditor não olha apenas para o número final. É necessário percorrer os diferentes elos que formam a informação, verificar controles, fontes e procedimentos e avaliar os riscos de distorção. No caso de um inventário de emissões de gases de efeito estufa, por exemplo, a análise pode começar na fonte primária do dado e acompanhar sua entrada em sistemas, conversões, consolidações, validações e aprovações.
Outro ponto destacado foi a necessidade de antecipar a participação dos auditores. Para Dutra, envolver a asseguração antes do encerramento do exercício pode ajudar a organização a compreender seus processos e seu ambiente de controle, reduzindo dificuldades nas etapas finais de elaboração e divulgação do relatório.
A experiência europeia apresentada por Giovani Nicoletti Polli acrescentou ao debate a perspectiva da implementação da CSRD. Segundo ele, um dos principais desafios enfrentados pelas empresas é subestimar o tempo e o esforço necessários para definir metodologias, avaliar materialidade, coletar dados e reunir as evidências necessárias para o reporte.
Polli também chamou atenção para a necessidade de integrar competências. De acordo com o especialista, equipes formadas exclusivamente por profissionais de finanças ou exclusivamente por profissionais de sustentabilidade podem apresentar lacunas. A combinação dos conhecimentos financeiro, contábil, operacional e regulatório é fundamental para a qualidade do processo.
A materialidade apareceu como outro eixo central do painel. Os especialistas discutiram a mudança de perspectiva trazida pelos padrões de divulgação financeira de sustentabilidade e a necessidade de compreender quais riscos e oportunidades podem afetar a capacidade da empresa de gerar valor e tomar decisões.
Para Roman, a materialidade é uma peça-chave para definir o que deve ser controlado e quais informações precisam chegar aos diferentes níveis da organização. A análise deve considerar tanto o usuário externo quanto as necessidades dos usuários internos, do nível operacional à alta administração e ao conselho.
No debate sobre a realidade brasileira, os participantes ressaltaram também a importância do chamado “letramento” dos profissionais de Contabilidade. A atuação do contador tende a exigir uma compreensão cada vez maior da operação das empresas e de seus riscos, permitindo que o profissional faça perguntas mais qualificadas e participe de forma estratégica da tomada de decisão.
“Não vai dar para ficar preso na conta T para o resto da vida. Você vai ter que entender, vai ter que ter uma visão integrada da companhia”, afirmou Roman. Para ele, o profissional de Contabilidade precisará dialogar mais com áreas como produção, recursos humanos, operações e sustentabilidade para compreender a realidade que está por trás dos números.
No encerramento, a discussão voltou ao propósito do reporte. Para Roman, o relatório não deve ser tratado como um objetivo isolado ou como uma obrigação meramente formal. O processo de elaboração das informações pode servir como instrumento de diagnóstico e aperfeiçoamento da própria gestão.
“Relatar não é um objetivo em si só”, afirmou. A partir dessa perspectiva, falhas identificadas na preparação ou na verificação das informações devem ser utilizadas para aprimorar processos, controles e responsabilidades. O resultado esperado é um ciclo contínuo no qual a melhoria dos processos aumenta a qualidade das informações, que, por sua vez, contribuem para uma gestão mais eficiente.
O painel reforçou, assim, que a agenda ESG não se resume à produção de relatórios. Para os especialistas, a confiabilidade das informações depende de uma estrutura que envolva governança, gestão de riscos, controles internos, tecnologia, auditoria e integração entre diferentes áreas. O ICBR destacou que o encontro faz parte de seu compromisso com a disseminação de conhecimento técnico e o desenvolvimento profissional diante das transformações provocadas pela agenda de sustentabilidade.



