
A Reforma Tributária representa uma transformação que vai além da substituição de tributos e exigirá uma mudança de comportamento das empresas, dos profissionais contábeis e das áreas envolvidas na gestão fiscal. Essa foi uma das principais conclusões do curso “Aspectos Contábeis da Reforma Tributária: Disclosure, Governança e Conformidade Fiscal Digital”, promovido pelo Instituto dos Contadores do Brasil (ICBR), que reuniu os especialistas Danilo Costa dos Santos, CEO e sócio-proprietário da Uphold Assessoria Contábil, e Camila Oliveira, especialista em contabilidade tributária e integrante do Comitê Técnico Tributário do ICBR.
Durante o encontro, os palestrantes destacaram que a implementação do novo modelo tributário, especialmente com a chegada do IBS e da CBS, demanda preparação antecipada, revisão de processos, integração entre contabilidade, fiscal, financeiro, compras, tecnologia e jurídico, além de atenção especial à qualidade das informações contábeis.
No início da apresentação, Danilo Costa dos Santos ressaltou que a Reforma Tributária não deve ser compreendida apenas como uma alteração na forma de cobrança dos impostos. Segundo ele, a mudança envolve uma transformação estrutural na maneira como as empresas administram suas informações e processos. “A Reforma Tributária veio realmente não só para formatar um novo método de aplicação e cobrança dos tributos. Ela representa muito mais do que uma substituição do PIS, Cofins, ISS e ICMS. O verdadeiro impacto estará dentro das empresas e na forma como elas irão se adequar a esse novo ambiente”, afirmou Danilo.
Um dos principais pontos debatidos foi a contabilização dos eventos relacionados ao IBS e à CBS durante o período de transição. Camila Oliveira explicou que a dispensa de recolhimento não elimina a necessidade de reconhecimento contábil dos fatos geradores ocorridos. “Quando existe o fato gerador, nasce a obrigação tributária. A dispensa está relacionada ao recolhimento, mas não significa que o evento deixou de existir contabilmente. A contabilidade precisa continuar trazendo informação fidedigna, observando o princípio da competência”, destacou Camila.
Danilo reforçou que o atual período deve ser utilizado como uma oportunidade para testes, ajustes de sistemas e preparação das empresas antes da efetiva cobrança do novo modelo. “Aconteceu, virou notícia, eu tenho que contabilizar. A contabilidade está ali para registrar os eventos. Estamos passando por uma transformação gigantesca envolvendo sistemas, parametrizações, cadastros e processos. Esse é o momento de testar, ajustar e aprender antes da entrada definitiva do novo cenário”, afirmou.
Outro tema de destaque foi o reconhecimento dos créditos tributários. Os especialistas explicaram que, com a nova sistemática, o crédito do IBS e da CBS terá uma dinâmica diferente da atual, exigindo maior integração entre dados fiscais, contábeis e financeiros.
Danilo explicou que a mudança impactará diretamente a gestão financeira das organizações: “Nós teremos dois momentos na contabilidade: o imposto a apropriar e, posteriormente, quando disponibilizado pela apuração assistida, o imposto a recuperar. Isso muda a forma como as empresas precisam olhar para seus processos e fluxo de caixa”.
A governança e a conformidade fiscal digital também estiveram entre os assuntos centrais do evento. Os palestrantes alertaram que erros em documentos fiscais, cadastros incorretos e falta de integração entre áreas poderão gerar impactos relevantes para as empresas.
“Não adianta querer chegar ao passo 10 sem ter feito o passo 1 e o passo 2. A Reforma Tributária exige uma cadeia de processos bem estruturada, com informações corretas desde a origem”, pontuou Danilo.
Durante o debate, também foi reforçada a importância do disclosure contábil, ou seja, da transparência e qualidade das informações divulgadas pelas organizações. Camila destacou que a comparabilidade das demonstrações financeiras será um fator essencial no novo ambiente empresarial. “A informação contábil precisa ser transparente, fidedigna, comparável e compreensível. Empresas que apresentarem informações completas terão melhores condições de demonstrar a realidade da sua operação”, afirmou.
Encerrando o encontro, Mário Shinzato, vice-presidente Técnico da Diretoria Executiva do ICBR, destacou a importância da atualização profissional e da preparação dos contadores diante das mudanças. “Temos que estar atentos para não perder a oportunidade de nos atualizarmos em relação à Reforma Tributária e, principalmente, de nos prepararmos. Nós já estamos em cima da hora, então quem ainda não começou essa preparação precisa correr bastante agora”, afirmou Mário Shinzato.
O curso reforçou o papel estratégico da contabilidade no processo de adaptação das empresas ao novo sistema tributário brasileiro, evidenciando que o profissional contábil terá participação cada vez mais relevante na interpretação de dados, gestão de riscos, conformidade e tomada de decisão empresarial.

