
A adoção de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade deve ser encarada pelas empresas como uma ferramenta de gestão, capaz de identificar riscos antes que eles se transformem em crises e comprometa a continuidade dos negócios. Essa foi uma das principais conclusões apresentadas pela contadora e especialista em sustentabilidade Vânia Borgerth durante o Painel 1 do Evento Anual ICBR-ESG 2026, realizado pelo Instituto dos Contadores do Brasil (ICBR), com mediação de Aderbal Hoppe, presidente do Conselho de Administração da entidade.
Ao abordar o tema “Informações Financeiras de Sustentabilidade: Governança, Transparência e Criação de Valor”, Vânia destacou que os riscos ambientais, sociais e de governança precisam deixar de ocupar uma posição periférica nas organizações e passar a fazer parte da estratégia empresarial. Para ela, uma empresa não pode administrar riscos que desconhece. “Reportar não é um favor que a empresa faz para o mercado, é, na verdade, uma decisão de gestão. O primeiro usuário do relatório de uma empresa tem que ser a própria empresa que reporta”, afirmou a especialista. Segundo Vânia, ao analisar suas próprias informações, a organização consegue fazer diagnósticos melhores e tomar decisões mais racionais.
A palestrante utilizou a imagem de um iceberg para explicar a evolução dos relatórios corporativos. Segundo ela, as informações financeiras tradicionais representam apenas a parte visível do iceberg, enquanto questões ambientais, sociais e de governança permaneceram durante muito tempo submersas. A experiência de empresas que apresentavam bons resultados financeiros, mas posteriormente sofreram grandes perdas associadas a problemas de governança ou impactos ambientais, mostrou a necessidade de trazer essas informações para a superfície.
Vânia também chamou atenção para o conceito de sustentabilidade. Em sua avaliação, o termo não deve ser confundido exclusivamente com questões ambientais, sociais e de governança. A sustentabilidade empresarial depende da capacidade de gerar resultados econômicos de forma duradoura, respeitando os limites ambientais, a dignidade humana e boas práticas de governança. “Se um desses fatores está faltando, eu já não tenho sustentabilidade”, explicou.
Ela acrescentou à discussão elementos como longo prazo, inovação, tecnologia e mudança cultural, defendendo que a sustentabilidade deve ser compreendida como uma responsabilidade coletiva, que começa nas atitudes individuais e alcança empresas, cidades, países e a sociedade global.
Outro ponto central da apresentação foi a necessidade de transformar as informações de sustentabilidade em dados confiáveis, comparáveis e passíveis de verificação. Vânia ressaltou que diferentes estruturas voluntárias de reporte contribuíram para a evolução do tema, mas apresentam limitações quando utilizadas sem uma padronização comum.
Segundo ela, sem um padrão global, fica mais difícil comparar empresas, identificar tendências e avaliar adequadamente riscos. A falta de uniformidade também aumenta a possibilidade de práticas como greenwashing e green rushing.
Nesse contexto, a especialista destacou a importância do trabalho desenvolvido pela IFRS Foundation, por meio do International Sustainability Standards Board (ISSB), e das normas IFRS S1 e IFRS S2. A proposta, explicou, é aproximar as informações de sustentabilidade das informações financeiras, garantindo maior conectividade, rastreabilidade e confiabilidade. “Uma empresa não pode ter várias verdades. Então esse vínculo com a informação contábil é fundamental para eu ter a rastreabilidade e a confiabilidade dessa informação para ela se tornar útil no mercado”, afirmou.
A palestrante também diferenciou frameworks de standards. Enquanto frameworks apresentam conceitos e orientações, os standards estabelecem metodologia, padronização e métricas, permitindo que as informações sejam acompanhadas, comparadas e auditadas. Para Vânia, essa característica é essencial para que reguladores possam supervisionar sua aplicação e para que investidores possam utilizar os dados em suas decisões.
A discussão também evidenciou a ampliação do papel dos profissionais da contabilidade nesse novo ambiente. Vânia lembrou que a Resolução CFC nº 1.710/2023 trouxe o profissional contábil para o processo de reporte das informações relacionadas às IFRS S1 e S2. “IFRS S1 e S2 não são relatórios de sustentabilidade. São relatórios de impacto financeiro das questões de sustentabilidade”, ressaltou. Para ela, a participação do contador é indispensável, mas o profissional não deve trabalhar isoladamente: precisa reunir especialistas capazes de fornecer informações confiáveis sobre os diferentes aspectos do negócio.
A especialista reforçou que sustentabilidade e contabilidade caminham para uma integração cada vez maior. “O contador que pensa assim, isso é coisa lá para o povo de sustentabilidade. Eu não tenho nada com isso. Ele vai ter problemas muito sérios de empregabilidade no futuro”, alertou, ao defender que os profissionais estejam preparados para lidar com a nova realidade dos relatórios corporativos.
Para Vânia, entretanto, a responsabilidade não é exclusivamente da contabilidade. O reporte precisa ser resultado de um trabalho integrado de toda a organização, desde o planejamento estratégico até a identificação de riscos e oportunidades.
A resiliência foi outro conceito destacado durante o painel. A partir das IFRS S2, as empresas devem estar preparadas para avaliar cenários, projetar impactos e probabilidades e estabelecer planos de transição para enfrentar riscos relacionados às mudanças climáticas.
Vânia comparou a preparação para uma crise ao combate a um incêndio. “Se você só vai pensar em como apagar o incêndio quando o fogo já está lá, a tua prioridade é apagar o incêndio. E pode ser que você use o extintor errado”, afirmou. Para ela, antecipar riscos permite que a organização tome decisões com mais tranquilidade e esteja preparada para executar planos de contingência quando necessário.
A especialista criticou ainda a insegurança provocada pela mudança no ambiente regulatório brasileiro e defendeu a importância de preservar a evolução alcançada pelo país na agenda de transparência e sustentabilidade. Na sua avaliação, o custo de não conhecer os riscos pode ser muito superior ao investimento necessário para identificá-los e administrá-los.
Outro aspecto abordado foi a necessidade de as empresas ampliarem o olhar para além de suas próprias operações. O reporte deve considerar a cadeia de valor, incluindo fornecedores e clientes, uma vez que riscos presentes nessas relações podem afetar a capacidade de geração de valor e a continuidade dos negócios.
“A empresa não pode administrar o risco que ela não sabe que tem”, afirmou Vânia, ao defender que as organizações conheçam melhor seus fornecedores, clientes e demais participantes da cadeia de valor.
A palestrante informou ainda que estão sendo desenvolvidas iniciativas para facilitar o acesso de pequenas e médias empresas às informações necessárias ao reporte, inclusive aquelas que integram cadeias de valor de empresas maiores.
Na mediação do painel, Aderbal Hoppe ressaltou a importância da integração entre contabilidade, sustentabilidade e os demais níveis estratégicos das organizações. Para ele, o contador tem papel relevante na reunião, classificação e comunicação das informações, mas depende da colaboração de toda a empresa. Hoppe, destacou que a evolução da normatização cria, ao mesmo tempo, novas oportunidades e responsabilidades para os profissionais da área.
Vânia concordou com a avaliação e reforçou que o profissional contábil não pode atuar sozinho. “De forma nenhuma o contador pode se arvorar a fazer isso sozinho”, afirmou. Segundo ela, é necessário trabalhar em conjunto com profissionais especializados nos diferentes aspectos ambientais, sociais e operacionais do modelo de negócio para garantir que as informações divulgadas possam ser comprovadas.
O painel também discutiu a relação entre IFRS S1, IFRS S2, relato integrado e frameworks como GRI, CDP, SASB e TNFD. Vânia explicou que o IFRS S1 funciona como uma infraestrutura de reporte e que as organizações não precisam simplesmente abandonar estruturas que já utilizam, mas avaliar como adequá-las aos novos padrões.
Ao encerrar sua participação, a especialista reforçou que a qualidade da informação é fundamental para reduzir ruídos e melhorar as decisões do mercado. O debate mostrou que a agenda de sustentabilidade deixou de ser uma discussão restrita a especialistas e passou a integrar o universo da governança, da gestão de riscos, da estratégia empresarial e da própria contabilidade.
O Painel 1 integrou a programação do Evento Anual ICBR-ESG 2026, promovido pelo Instituto dos Contadores do Brasil, reunindo profissionais e especialistas para discutir os desafios e as oportunidades relacionados à implementação dos padrões brasileiros de divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade.


