
A sucessão em escritórios de contabilidade deve deixar de ser encarada como um evento e passar a ser tratada como um processo contínuo de planejamento, governança e preparação das futuras lideranças. Esse foi o principal consenso apresentado pelas contadoras Elisete Ferreira de Carvalho, Lisiane Bazzo e Viviane Ramthun Gumz, durante o curso gratuito "Sucessão Familiar sem Conflitos: Planejamento para Escritórios de Contabilidade", promovido pelo Instituto dos Contadores do Brasil (ICBR). A mediação ficou a cargo do Prof. Dr. Iago França Lopes, vice-presidente de Desenvolvimento Profissional do ICBR e professor da UFRJ, que conduziu o debate enfatizando a importância da sucessão como estratégia para assegurar a continuidade das organizações contábeis em um cenário de profundas transformações tecnológicas e geracionais.
Ao longo de quase duas horas de debates, as especialistas compartilharam experiências práticas vividas em empresas familiares, demonstrando que o sucesso da sucessão depende menos de aspectos jurídicos e tributários e muito mais da construção de confiança, da comunicação entre as gerações e da preparação gradual de quem assumirá a liderança.
Para a presidente do Instituto Paranaense da Mulher Contabilista (IPMCONT), Elisete Ferreira de Carvalho, a maior ameaça aos escritórios familiares não está na legislação, mas na ausência de planejamento. "A sucessão não começa quando o fundador decide se aposentar. Ela começa muito antes. O maior patrimônio de um escritório contábil não são os clientes, mas a confiança construída ao longo dos anos. Se não houver diálogo, clareza de papéis e preparo emocional, dificilmente esse processo será bem-sucedido."
De acordo com ela, o fundador precisa compreender que delegar faz parte da construção do legado. "Quem vai suceder precisa receber apoio, confiança e espaço para crescer. Ao mesmo tempo, o sucessor deve respeitar a história construída antes de propor mudanças. É justamente o encontro entre experiência e inovação que fortalece o negócio."
A contadora Lisiane Bazzo, que vive atualmente o processo de sucessão ao lado da mãe Elizete, destacou que assumir a liderança exige preparação técnica, maturidade e desenvolvimento de competências de gestão. "A sucessão não é um evento; ela é um processo. O sucessor precisa entender profundamente a empresa antes de querer transformá-la. É preciso aprender todos os processos, conquistar a confiança da equipe e dos clientes e desenvolver liderança com mérito."
Ela também ressaltou que iniciar o planejamento cedo reduz conflitos e amplia as chances de continuidade do empreendimento. "Quanto antes esse processo começar, melhor. O cliente também precisa perceber que existe preparação, governança e continuidade. Isso transmite segurança."
Já Viviane Ramthun Gumz compartilhou a experiência da sucessão realizada em seu escritório, no qual atualmente administra o negócio ao lado da irmã após uma transição construída ao longo de vários anos. "Não existe fórmula mágica. Existem conflitos, porque cada geração pensa de uma forma. Mas quando o fundador prepara os sucessores, envolve os clientes e transmite confiança, a transição acontece de maneira muito mais tranquila."
De acordo com ela, a participação dos sucessores nas decisões desde cedo foi determinante para o êxito da mudança de liderança. "Meu pai sempre nos envolveu nas decisões do escritório. Isso fez toda a diferença, porque quando chegou o momento da sucessão, clientes e colaboradores já reconheciam nossa autoridade."
Outro tema amplamente debatido foi o impacto das novas tecnologias na continuidade das empresas familiares. Para as palestrantes, a transformação digital tornou-se um elemento indispensável para despertar o interesse das novas gerações pela profissão contábil.
Elisete observou que os escritórios precisarão se reinventar para permanecer atrativos. "Se não transformarmos o escritório em um ambiente moderno, tecnológico e mais flexível, dificilmente teremos sucessores interessados em dar continuidade ao negócio."
Durante a mediação, o Prof. Dr. Iago França Lopes destacou que a sucessão deve ser compreendida como um processo estratégico de governança corporativa. "Quando o fundador reconhece a importância de preparar quem dará continuidade ao negócio, cria-se uma ponte entre gerações sustentada por confiança, participação nas decisões e governança. O objetivo é garantir que o legado construído permaneça vivo."
O vice-presidente de Desenvolvimento Profissional do ICBR também ressaltou que a sucessão representa uma oportunidade para fortalecer a profissão contábil diante das mudanças provocadas pela inovação tecnológica. "A tecnologia acelera as transformações, mas o conhecimento acumulado pelas gerações anteriores continua sendo indispensável. O desafio está justamente em integrar experiência, inovação e propósito."
Ao final do encontro, ficou evidente que preservar empresas familiares exige muito mais do que documentos societários ou planejamento tributário. Comunicação transparente, preparo das lideranças, respeito entre as gerações, profissionalização da gestão e adoção de boas práticas de governança foram apontados como os principais pilares para garantir a continuidade dos escritórios contábeis e preservar o patrimônio construído ao longo de décadas.


