
Informações sobre sustentabilidade não podem ser tratadas de forma isolada dos números e das decisões financeiras das companhias. Esse foi o principal alerta apresentado pelo professor Eduardo Flores durante o curso “Elaboração de relatórios de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade segundo as IFRS S1 e S2”, realizado pelo Instituto dos Contadores do Brasil (ICBR) em 25 de agosto, com mediação de Iago França Lopes, Vice-Presidente de Desenvolvimento Profissional da Diretoria Executiva do ICBR. Para Flores, a essência das normas está em compreender como riscos e oportunidades relacionados à sustentabilidade podem alterar fluxos de caixa, custos, investimentos, acesso a financiamento e, em última análise, a capacidade de geração de valor das empresas.
Realizado gratuitamente de forma on line, o encontro abordou os fundamentos das IFRS S1 e S2 e sua aplicação no Brasil por meio dos pronunciamentos CBPS 01 e CBPS 02, correspondentes às NBC TDS 01 e NBC TDS 02. A proposta foi aproximar os profissionais da contabilidade dos novos requisitos de divulgação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade.
Ao longo da apresentação, Eduardo Flores ressaltou que a expansão das normas de sustentabilidade responde, principalmente, à necessidade de oferecer aos investidores, credores e demais provedores de recursos informações mais consistentes, comparáveis e confiáveis. Segundo ele, a proliferação de diferentes modelos voluntários de divulgação criou o risco de empresas escolherem os formatos que melhor atendessem aos seus próprios interesses.
Nesse contexto, a padronização promovida pelo International Sustainability Standards Board (ISSB) ganha relevância. “O que a gente está dizendo, basicamente, é: se eu tenho, por exemplo, uma indústria que está localizada numa área que é sujeita a chuvas torrenciais, e anualmente essa indústria precisa ficar parada, é necessário compreender quanto esse fenômeno pode representar financeiramente para a empresa”, explicou Flores.
A lógica, segundo o professor, é fazer com que temas aparentemente ambientais, sociais ou de governança sejam analisados também sob a perspectiva financeira. Uma fábrica sujeita a enchentes, uma rede hoteleira afetada pela elevação do nível do mar ou uma montadora que precisa se adaptar à transição para veículos elétricos são exemplos de situações nas quais questões de sustentabilidade podem produzir efeitos concretos sobre ativos, receitas, custos e investimentos.
Um dos conceitos centrais apresentados foi o da conectividade entre as informações financeiras e as informações relacionadas à sustentabilidade. Para Flores, os diferentes relatórios corporativos precisam apresentar uma narrativa coerente sobre os mesmos eventos econômicos. “Eu não posso ter um mesmo evento numa mesma empresa relatado de uma forma no relatório de sustentabilidade e relatado de uma outra forma no relatório financeiro”, afirmou.
A falta dessa conexão pode, de acordo com o professor, indicar uma governança fragmentada. Se a sustentabilidade é apresentada como elemento central da estratégia empresarial, por exemplo, deve haver evidências dessa prioridade nas decisões, nos investimentos e nas discussões realizadas pelos órgãos de governança.
Flores também diferenciou conectividade de interoperabilidade. Enquanto a primeira exige coerência entre os diferentes conjuntos de informações corporativas, a interoperabilidade permite que as normas do ISSB convivam com outros padrões e exigências regulatórias, preservando uma base informacional comum.
Outro ponto destacado foi a natureza das IFRS S1 e S2. Flores explicou que as normas estabelecem requisitos para divulgação de riscos e oportunidades, mas não têm a função de classificar empresas como mais ou menos sustentáveis. “As normas do ISSB são normas de divulgação, elas não são normas de juízo de valor”, destacou. “Quem faz essa tomada de decisão é o usuário”, acrescentou, ao explicar que cabe aos investidores e demais usuários interpretar as informações divulgadas e tomar suas próprias decisões.
Da mesma forma, as normas não substituem os processos internos de gerenciamento de riscos. A organização precisa identificar, avaliar e administrar seus riscos antes de estar em condições de reportá-los. “A norma não é uma norma de gestão de riscos, ela presume a existência de uma gestão prévia de riscos”, explicou Flores.
Essa característica faz com que a adoção das normas possa, indiretamente, contribuir para o aprimoramento da própria gestão. Como sintetizou o professor: “Como é que você vai reportar o risco que você desconhece?”
A definição daquilo que deve ser divulgado também ocupou espaço importante na palestra. Flores explicou que a materialidade deve ser analisada sob a perspectiva financeira, considerando a capacidade de determinado risco ou oportunidade de afetar os fluxos de caixa, o custo de capital, o financiamento, os investimentos ou a geração de valor da organização.
O processo envolve conhecer profundamente o modelo de negócio, identificar riscos e oportunidades e avaliar sua probabilidade e impacto. A partir dessa análise, temas considerados relevantes podem ser incorporados à matriz de materialidade e, posteriormente, aos relatórios de sustentabilidade.
Para o professor, a informação divulgada também precisa representar fielmente uma realidade que efetivamente exista. “Antes da divulgação, é necessário que o objeto da divulgação exista. Eu não posso divulgar intenções”, afirmou.
A afirmação reforça a necessidade de que declarações corporativas sobre sustentabilidade estejam apoiadas em processos, decisões, documentos e evidências capazes de sustentar aquilo que é apresentado aos usuários.
A nova agenda representa, na avaliação de Flores, não apenas uma mudança regulatória, mas também uma oportunidade de valorização profissional para os contadores. “Não veja isso como um pesar; veja isso como uma oportunidade profissional”, afirmou. Para ele, a aproximação dos profissionais de contabilidade com a gestão tende a ampliar sua relevância dentro das organizações.
O professor destacou ainda que a profissão possui legitimidade técnica para participar desse processo porque, historicamente, desenvolveu métodos para transformar grandes volumes de dados em informações estruturadas e úteis à tomada de decisão. Nesse sentido, a elaboração dos relatórios financeiros relacionados à sustentabilidade amplia o campo de atuação da contabilidade.
Na abertura do curso, o Dr. Iago França Lopes, Vice-Presidente de Desenvolvimento Profissional da Diretoria Executiva do ICBR, ressaltou a importância de criar espaços de capacitação e diálogo sobre um tema que vem transformando a atuação dos profissionais da contabilidade.
Ao apresentar Eduardo Flores, Iago destacou sua trajetória acadêmica e profissional e a relevância de sua atuação junto ao Comitê Brasileiro de Pronunciamentos de Sustentabilidade. O mediador também enfatizou que o encontro representava uma oportunidade para aprofundar a discussão sobre a elaboração dos relatórios de sustentabilidade segundo as IFRS S1 e S2.
“O profissional da contabilidade precisa estar cada vez mais próximo das transformações que estão redefinindo a forma como as empresas comunicam seus riscos, oportunidades e estratégias. A discussão sobre IFRS S1 e S2 mostra que sustentabilidade e contabilidade não são agendas separadas: elas precisam dialogar para que a informação corporativa seja efetivamente útil à tomada de decisão”, afirmou Iago França Lopes.
O curso integrou a agenda de atualização técnica promovida pelo ICBR diante das mudanças regulatórias e da crescente demanda de investidores, reguladores e da sociedade por informações qualificadas sobre sustentabilidade.
Este evento teve o apoio da Editora GEN|ATLAS.