
O contador do futuro precisará ir além da apuração de tributos e assumir protagonismo na preservação patrimonial de famílias empresárias. Essa foi uma das principais mensagens do curso “O que o contador precisa saber sobre o patrimônio que o balanço não mostra”, promovido pelo Instituto dos Contadores do Brasil (ICBR) durante a 13ª Semana Nacional de Educação Financeira (Semana ENEF). O encontro reuniu o planejador financeiro Ivan Vianna e o mediador André Luis de Moura Pires, presidente da Diretoria Executiva do Instituto, para discutir riscos patrimoniais não divulgados nas demonstrações contábeis, como ausência de liquidez do(s) sócio(s), conflitos sucessórios e falta de governança familiar.
Ao longo da palestra, Ivan Vianna alertou que muitos empresários acumulam patrimônio relevante, mas permanecem vulneráveis diante de eventos inesperados, especialmente por não estruturarem adequadamente a sucessão e a proteção financeira da família. “O balanço registra o passado e o patrimônio acumulado. Mas a continuidade desse patrimônio depende de algo muito maior: estrutura, liquidez, governança e planejamento”, afirmou.
De acordo com o especialista, a contabilidade tradicional ainda não reflete riscos que podem comprometer empresas familiares em momentos críticos. “O balanço não mostra conflitos sucessórios, herdeiros despreparados, ausência de liquidez ou dependência excessiva do fundador. E é justamente isso que destrói patrimônios aparentemente sólidos”, destacou.
Durante o curso, Vianna apresentou casos reais — com informações adaptadas — para demonstrar como empresas financeiramente saudáveis podem enfrentar colapso diante da morte do principal sócio ou da falta de planejamento sucessório. Em um dos exemplos, relatou a situação de um empresário com patrimônio elevado, mas com quase toda a riqueza concentrada em imóveis operacionais, sem liquidez imediata para sustentar a família em um processo de inventário.
O mediador André Luis de Moura Pires reforçou que esse cenário é frequente na prática pericial e contábil. “A gente percebe que muitos empresários confundem patrimônio pessoal com patrimônio da empresa. Quando ocorre um falecimento, os herdeiros frequentemente não sabem nem quais ativos existem, nem onde estão registrados”, explicou.
André Pires relatou ainda casos de empresas familiares que enfrentaram dificuldades operacionais graves após a morte do patriarca, incluindo risco de paralisação das atividades e disputas entre herdeiros. “Já vimos empresas sólidas sofrerem pedidos de falência por falta de liquidez imediata, mesmo possuindo patrimônio elevado”, afirmou.
Outro ponto de destaque foi a discussão sobre os impactos da Reforma Tributária no planejamento sucessório. Ivan Vianna chamou atenção para a necessidade de antecipação das estratégias patrimoniais diante das mudanças no ITCMD e no aumento do custo de transmissão de bens. “Transmitir patrimônio desestruturado ficará cada vez mais caro. Por isso, instrumentos como holdings familiares, doações com usufruto e estruturas previdenciárias ganham importância estratégica”, observou.
O palestrante também destacou o papel de ferramentas como VGBL e PGBL na sucessão patrimonial e na geração de liquidez para famílias empresárias. Segundo ele, esses instrumentos podem garantir acesso rápido a recursos financeiros em momentos críticos, evitando que herdeiros sejam obrigados a vender ativos em situações desfavoráveis. “Famílias raramente entram em colapso porque o patrimônio desapareceu. Normalmente entram em colapso porque a liquidez desaparece primeiro”, pontuou.
Ao defender uma atuação mais consultiva da classe contábil, Vianna afirmou que os profissionais da área ocupam posição privilegiada na relação com empresários e famílias. “Talvez nenhum profissional esteja numa posição tão privilegiada quanto o contador. O contador do futuro não será apenas quem apura tributos, mas quem ajuda famílias empresárias a preservar patrimônio, estabilidade e continuidade entre gerações”, concluiu.
O evento integrou a programação da Semana ENEF, iniciativa nacional voltada à promoção da educação financeira no país, e reuniu contadores, peritos, advogados e profissionais da área financeira interessados em ampliar a atuação estratégica junto aos clientes empresariais.

